terça-feira, 23 de outubro de 2012

LIVRO MOONWALK: CAPÍTULO 1: APENAS CRIANÇAS COM UM SONHO



Eu sempre quis contar histórias, vocês sabem, histórias que me saíssem da alma. Gostaria de sentar-me junto ao fogo e contar histórias para as pessoas, fazê-las ver fotografias, fazê-las chorar e rir, levá-las emocionalmente a qualquer lugar  com algo tão simples como palavras. Gostaria de contar histórias que movessem suas almas e as transformassen. Imagino como devem sentir-se os grandes escritores, sabendo que eles têm esse poder.
Às vezes eu sinto que eu poderia fazê-lo. É algo que eu gostaria de desenvolver. De alguma forma, o escrever canções  utiliza as mesmas habilidades, cria oscilações emocionais, mas a história é curta. É como o mercúrio. Existem muito poucos livros sobre a arte de contar histórias, como manter a atenção dos leitores, como montar um grupo de pessoas e diverti-las. Sem roupa, sem maquiagem, sem nada, somente você e sua voz e sua poderosa habilidade para levá-las a qualquer lugar, para transformar suas vidas, mesmo que seja apenas por alguns minutos.

Ao começar a contar minha própria história, quero repetir o que eu usualmente digo às pessoas quando me perguntam sobre meus primeiros dias com o "Jackson 5": Eu era tão pequeno quando começamos a trabalhar em nossa música que realmente não me lembro de muita coisa. Muitas pessoas desfrutam do luxo de ter feito carreiras que começam quando tem idade suficiente para saber exatamente o que e por que estão fazendo, mas, claro, comigo não se passou assim. Eles lembram tudo o que aconteceu a eles, mas eu só tinha cinco anos. Quando você é uma criança do show businees, você realmente não tem a maturidade para entender muitas das coisas que acontecem ao seu redor. Pessoas tomam muitas decisões sobre sua vida quando você sai da sala. Então, é isso que eu me lembro. Lembro-me cantando no mais alto da minha voz  e dançando com autêntica alegria e trabalhando tão duro sendo uma criança. Claro, existem muitos detalhes que não me lembro de todo. Lembro-me que o "Jackson 5" realmente decolou quando eu tinha somente oito ou nove anos.


Imagine cantando e dançando nesta idade


Nasci em Gary, Indiana, em uma das últimas noites do verão de 1958, e fui o sétimo dos nove filhos de meus pais. Meu pai, Joe Jackson, nasceu em Arkansas, e em 1949 se casou com minha mãe, Katherine Scruse, cuja família veio do Alabama. Minha irmã Maureen nasceu no ano seguinte e teve a difícil tarefa de ser a mais velha. Jackie, Tito, Jermaine, LaToya e Marlon foram os próximos da linha. Randy e Janet vieram depois de mim.

Uma parte das minhas primeiras lembranças é do meu pai trabalhando na fundição de aço. Era um trabalho duro e paralisante, e ele dedicava-se à música para distrair-se. Ao mesmo tempo, minha mãe trabalhava em uma loja de departamento. Por causa do meu pai e também do próprio amor da minha mãe à música, nós a ouvíamos o tempo todo em casa. Meu pai e seu irmão formaram um grupo chamado "The Falcons", que foi a banda local de R & B. Meu pai tocava guitarra, assim como seu irmão. Eles tocavam algumas canções do início do rock'n'roll e blues de Chuck Berry, Little Richard, Otis Redding. Todos aqueles estilos eram surpreendentes e cada um teve influência sobre Joe e sobre nós, apesar de sermos tão jovens para percebermos isso naquela época. The Falcons ensaiavam na sala da nossa casa em Gary, de modo que eu fui criado no R & B. Como éramos nove filhos e o irmão de meu pai tinha outros oito filhos, todos nós, juntos, constituíamos uma grande família. Música era o que tínhamos para diversão e aqueles momentos nos ajudavam a permancermos juntos e de alguma maneira davam respaldo a meu pai para que se conduzisse como um homem orientado pela idéia de família. "The Jackson 5" nasceram desse espírito - mais tarde adotamos o nome "The Jacksons" - e, como resultado dessa formação e tradição musical eu me desenvolvi  por minha conta e criei o meu próprio som.

Eu lembro  minha infância como composta em sua maior parte por trabalho, apesar de que eu amava cantar. Não fui obrigado a entrar nesta profissão por pais dedicados ao espetáculo, como ocorreu com Judy Garland. Eu o fiz porque eu gostava e porque era natural para mim como inspirar e expirar. Fiz isso porque fui compelido a fazê-lo, não por pais ou família, mas por minha própria vida interior no mundo da música.

Meu pai e minha mãe

Houve momentos, permita-me-deixar isso claro, quando eu chegava da escola e só tinha tempo para guardar meus livros e preparar-me para o estúdio. Uma vez lá, eu cantava até tarde da noite, até que passasse a hora de ir dormir, realmente.  Havia um parque do outro lado da rua do estúdio da Motown, e lembro-me olhando para aquelas crianças que brincavam. Eu somente olhei-as com espanto -  não poderia imaginar tal liberdade, uma vida despreocupada -  e desejar mais do que qualquer coisa  ter esse tipo de liberdade, poder ir embora e ser como eles. Então, houve momentos tristes na minha infância. É verdade para qualquer estrela mirim. Elizabeth Taylor me disse que sentia o mesmo. Quando você é jovem e está trabalhando, o mundo pode parecer terrivelmente injusto. Eu não fui forçado a ser o pequeno Michael, o vocalista -  eu fiz isso e amei fazê-lo - mas foi um trabalho duro.  Se estávamos preparando um álbum, por exemplo, tínhamos que ir ao estúdio ao sairmos da escola e podia acontecer de almoçarmos ou não. Às vezes não havia tempo nem para isso. Voltava para casa exausto, e podiam ser onze ou meia noite, muito mais tarde da hora de deitar-me.


Deste modo, identifico-me profundamente com qualquer um que tenha trabalhado como uma criança. Eu sei como eles lutaram, eu sei o que eles sacrificaram. Também sei o que eles aprenderam. Eu aprendi que o desafio vai aumentando à medida que se fica mais velho. Eu me sinto velho por algumas razões. Eu realmente sinto como uma alma velha, como alguém que viu e experimentou muito. Porque todos os anos que vivi, é difícil para mim aceitar que só tenho vinte e nove anos. Eu estou no negócio por vinte e quatro anos. Algumas vezes me sinto como se estivesse ao final de minha vida. fazendo oitenta anos, com pessoas dando-me tapas nas costas. Este é o resultado de ter começado tão jovem.

Quando eu performei pela primeira vez com meus irmãos, éramos conhecidos como os Jacksons.  Mais tarde, nos tornamos o Jackson 5. Ainda mais tarde, depois de sairmos da Motown,  recuperamos o nome Jacksons novamente.

Cada um de meus álbuns ou dos álbuns do grupo tem sido dedicado a nossa mãe, Katherine Jackson, desde que assumimos nossa própria carreira e começamos a produzir nossa música. Minhas primeiras recordações são dela segurando-me e cantando canções como "You Are My Sunshine" e "Cotton Fields". Ela cantava para mim e para meus irmãos e irmãs frequentemente. Embora ela tivesse vivido em Indiana por algum tempo, minha mãe cresceu no Alabama, e naquela parte do país era simplesmente comum para pessoas negras serem educadas com música country e música ocidental colocada no rádio, como era para eles ouvirem as espirituais na igreja (músicas da igreja: nota do blog). Ela gosta de Willie Nelson hoje. Ela sempre teve uma linda voz  e suponho que recebi da minha mãe  e, naturalmente, de Deus, minha habilidade para cantar.


A mãe tocava clarinete e o piano, que ensinou minha irmã mais velha Maureen,  a quem chamamos Rebbie, tocar, bem como havia ensinado a minha outra irmã mais velha, La Toya. Minha mãe sabia, desde a tenra idade, que nunca iria performar a música que ela amava em frente de outros, não porque ela não tinha o talento e a habilidade, mas porque ela foi prejudicada pela polio enquanto criança. Ela se recuperou da doença, mas não sem mancar permanentemente ao andar. Ela teve que perder uma grande quantidade de aulas enquanto criança, mas ela nos contou que teve sorte por haver se recuperado em uma época em que muitos morriam da doença. Lembro-me de quão importante era para ela que nós tomássemos a vacina. Ela até nos fez com que faltássemos a um espetáculo do clube juvenil em um sábado à tarde. Tal era a importância que tinha em nossa família.


Minha mãe sabia que sua polio não era uma maldição, mas um teste que Deus deu a ela para triunfar e ela incutiu em mim um amor por Ele que eu sempre terei. Ela me ensinou  que meu talento para cantar e dançar era tanto obra de Deus como um belo pôr do sol ou uma tempestade que deixou a neve para as crianças brincarem. Apesar de todo o tempo que gastamos ensaiando e viajando, a mamãe encontrava tempo para me levar ao Salão do Reino dos Testemunhas de Jehová, geralmente com Rebbie e La Toya.

Anos mais tarde, depois de termos deixado Gary, nós performamos no "The Ed Sullivan Show", o show de variedades ao vivo aos domingos à noite, onde a América viu pela primeira vez os Beatles, Elvis e Sly and The Family Stone. Após o show, Mr. Sullivan nos cumprimentou e agradeceu a cada um de nós, mas eu estava pensando no que ele tinha dito a mim antes do show. Eu estava andando nos bastidores, como o garoto do comercial da Pepsi e corri  para Mr. Sullivan. Ele parecia feliz em me ver e apertou minha mão, mas antes que ele saísse, tinha uma mensagem especial para mim. Era 1970, um ano quando algumas das melhores pessoas no rock estavam perdendo suas vidas para  drogas e álcool. Uma geração mais velha, mais sábia no  show business não estava preparada para perder seus membros mais jovens. Algumas pessoas já haviam dito que eu lembrava a eles Franklie Lymon ( Frankie Lymon foi um cantor e compositor de R& B afroamericano, líder da banda novaiorquina 'The Teenagers da década de 1950 - nota do blog), um grande cantor jovem dos anos cinquenta que perdeu a vida daquela forma. Ed Sullivan talvez tenha pensado em tudo isso quando me disse: 'Nunca se esqueça de onde seu talento vem, seu talento é um dom de Deus.'

Estava grato por sua bondade, mas eu poderia ter dito a ele que minha mãe nunca me deixou esquecer.
Eu nunca tive a pólio, que é uma coisa assustadora para um dançarino pensar, mas eu sabia que Deus havia testado a mim e a meus irmãos e irmãs de outras formas: nossa grande família, nossa pequena casa, a pequena quantidade de dinheiro que tínhamos para fazer frente às despesas, até mesmo as crianças ciumentas da vizinhança que atiravam pedras contra nossas janelas quando ensaiávamos, gritando que nunca faríamos isso. Quando eu penso em minha mãe e em nossos primeiros anos posso dizer a vocês que existem recompensas que vão muito além do dinheiro e aclamação do público e prêmios. 


Minha mãe e Janet em Indiana

Minha mãe era uma grande provedora. Se ela descobrisse que um de nós tinha interesse em alguma coisa, ela iria  incentivá-la se houvesse alguma maneira possível. Se eu desenvolvia um interesse em estrelas de cinema, por exemplo, ela chegava em casa com o braço cheio de livros sobre estrelas famosas. Mesmo com nove filhos, ela tratava a cada um de nós como um único filho. Não há nenhum de nós que tenha esquecido alguma vez o quão duramente ela trabalhou e a grande provedora que ela era. É uma velha história.
Toda criança pensa que sua mãe é a maior do mundo, mas nós, os Jacksons, nunca perdemos aquele sentimento. Por causa da gentileza de Katherine, cordialidade e atenção, não posso imaginar como deve ser crescer sem um amor de mãe.

Uma coisa que sei sobre as crianças é que se elas não recebem de seus pais o amor que precisam, irão conseguir de outra pessoa e se apegarão a ela, um avô, qualquer um. Nós nunca tivemos que olhar para ninguém mais, com minha mãe ao redor. As lições que ela nos ensinou foram inestimáveis. Bondade, amor e consideração para com outras pessoas encabeçavam sua lista. Não machucar pessoas. Nunca implorar. Nunca queira tirar vantagem dos outros. Estes eram pecado em nossa casa. Ela sempre quis que nós déssemos, mas nunca quis que pedíssemos ou suplicássemos. Esta é a maneira dela.

Lembro uma boa história sobre minha mãe que ilustra sua  natureza. Um dia, de volta a Gary, quando eu era realmente pequeno, um homem chamou em todas as portas logo pela manhã. Ele sangrava tanto que você podia-se ver o caminho que havia seguido pela vizinhança. Ninguém iria deixá-lo entrar. Finalmente chegou à nossa porta e começou a bater e bater. Minha mãe deixou que entrasse. Agora, a maioria das pessoas teriam tido medo de fazer isso, mas essa é a minha mãe. Posso lembrar acordando e encontrando sangue em nosso chão. Gostaria que todos pudéssemos ser mais parecidos com minha mãe.

As  lembranças mais antigas que eu tenho do meu pai são de vê-lo chegando em casa da siderúrgica com um grande saco de doughnuts glaseados para todos nós. Meus irmãos e eu podíamos, então, comer naquela época e aquele saco desapareceria em um estalar de dedos. Ele costumava levar-nos ao carrossel do parque, mas eu era tão jovem que não me lembro disso muito bem.

Meu pai sempre foi um mistério para mim e ele sabe disso. Uma das poucas coisas que eu lamento mais é nunca ser capaz  de ter uma proximidade real com ele. Ele construiu uma concha em torno de si ao longo dos anos e, uma vez que  parou de falar sobre nossos negócios de família, achou difícil se relacionar conosco. Estávamos todos juntos, e ele somente saía da sala. Ainda hoje lhe custa tocar no assunto de pais e filhos porque ele está tão constrangido. Quando eu vejo que ele está, fico constrangido também.


Meu pai sempre nos protegeu e isso não é pouca coisa. Ele sempre tentou fazer com que as pessoas não nos enganassem. Ele cuidou de nossos interesses das melhores maneiras. Ele pode ter feito alguns poucos erros ao longo do caminho, mas sempre pensou que estava fazendo o que era certo para sua família. E, claro, a maior parte do que meu pai nos ajudou a realizar foi maravilhoso e único, especialmente no que diz respeito às nossas relações com empresas e pessoas nos negócios.
Eu diria que nós estávamos entre uns poucos artistas afortunados que saíam da infância nos negócios com alguma  coisa substancial - dinheiro, bens, outros investimentos. Meu pai definiu tudo isso para nós. Ele olhou tanto para nossos interesses como para o seu. Até hoje eu sou tão agradecido a ele por não ficar com todo o dinheiro, coisa que, ao contrário, muitos pais de estrelas mirins fazem. Imagine, roubando de seus próprios filhos. Meu pai nunca fez nada parecido. Mas eu ainda não o conheço, e isto é triste para um filho que tem necessidade de entender seu próprio pai. Ele ainda é um homem misterioso para mim e pode ser sempre.

O que eu recebi de meu pai não caiu necessariamente do céu, ainda que a Bíblia diga que você colhe o que planta. Enquanto seguíamos adiante, o pai dizia isso de maneira  diferente, mas a mensagem era igualmente clara: pode-se  ter todo o talento do mundo, mas se não se prepara e planeja, não lhe serviria de nada.

Joe Jackson sempre amou cantar e música tanto quanto a minha mãe, mas ele também sabia que havia um mundo  além da rua Jackson. Eu não tinha idade o suficiente para lembrar de seu grupo The Falcons, mas eles vinham a nossa casa ensaiar nos finais de semana. A música os levava para longe de seus postos de trabalho na siderúrgica, onde o pai dirigia um guindaste.  The Falcons tocavam em toda a cidade e em clubes e colégios pelo Norte de Indiana e Chicago. Nos ensaios de nossa casa, o pai tirava sua guitarra do armário e a conectava ao amplificador que tinha no porão. Todos se preparavam e a música começava. Ele sempre amou do rhythm and blues e aquela guitarra era seu orgulho e alegria. O armário onde a guitarra era mantida era considerado um lugar quase sagrado.  Desnecessário dizer que estava fora do nosso alcance quando éramos meninos. 
O pai não ia ao Salão do Reino conosco, mas tanto mamãe como o pai sabiam que a música era uma maneira de manter unida a nossa família em um bairro onde as gangues delitivas recrutavam meninos da idade de meus irmãos. Os três mais velhos sempre tinham uma desculpa para estar por ali quando vinham The Falcons. Papai os fazia pensar que estava dando um tratamento especial a eles por serem permitidos escutar, mas ele estava realmente ansioso para  tê-los ali.

Tito assistia tudo o que estava acontecendo com o maior interesse. Ele havia aprendido a tocar o saxofone na escola, mas, podia dizer que suas mãos eram grandes o suficiente para dedilhar as cordas e entrar nas improvisações que meu pai tocava. Fazia sentido que se integrasse nelas porque Tito se parecia tanto com meu pai, que todos esperávamos que compartilhasse os talentos dele. A extensão da  semelhança era impressionante à medida que ficou mais velho. Talvez meu pai notou o zelo de Tito porque ele estabeleceu regras para todos meus irmãos: ninguém poderia tocar a guitarra quando ele estivesse fora. E ponto.

Portanto, Jackie, Tito e Jermaine foram cuidadosos de que a mãe estivesse na cozinha quando eles "emprestavam" a guitarra. Eles também foram cuidadosos de não fazer nehum barulho quando pegavam-na. Então, voltavam ao nosso quarto e colocavam a rádio ou o pequeno toca-discos de forma que pudessem tocar. Tito colocava a guitarra sobre sua barriga enquanto se sentava sobre a cama apoiando-a.. Ele se revezava com Jackie e Jermaine, e todos tentam as escalas que estavam aprendendo na escola bem como descobrir como conseguir a partitura dos "Green Onions" que haviam escutado na rádio.

Naquela época eu tinha idade suficiente para entrar e observar se prometesse não dizer nada. Um dia, mamãe finalmente os descobriu, e todos nós ficamos preocupados. Ela ralhou com os meninos, mas disse que não contaria ao pai se nós tivéssemos cuidado. Ela sabia que a guitarra  estava protegendo-os de ir-se com gente ruim e talvez apanharem. Assim, não estava  disposta a tirar qualquer coisa que mantinham ao alcance de sua mão.

Claro, algo teria que ocorrer cedo ou tarde, e um dia uma corda quebrou. Meus irmãos em pânico, Não havia tempo para consertá-la antes que o pai regressasse à casa e, além disso, nenhum de nós sabia como fazer para consertá-la. Meus irmãos não descobriram o que fazer, então colocaram a guitarra de volta no armário e esperaram fervorosamente que meu pai pensasse que havia quebrado sozinha. É claro, o pai não comprou aquilo, e ficou furioso. Minhas irmãs me disseram para me manter fora disso e escondesse. Ouvi Tito chorando depois que o pai descobriu e fui investigar, claro. Tito estava em sua cama chorando quando o pai voltou e fez sinal para ele se levantar. Tito estava com medo, mas meu pai só ficou lá, segurando sua guitarra favorita. Ele deu um olhar duro e penetrante a Tito e disse: 'Deixe-me ver o que você pode fazer.'

Meu irmão se recompôs e começou a tocar uns acordes que ele aprendeu sozinho. Quando meu pai viu o quão bem Tito poderia tocar, sabia que, obviamente, estava praticando e percebeu que Tito e o resto de nós não tratávamos sua guitarra favorita como se esta fosse um brinquedo. Tornou-se claro para ele que o que tinha acontecido foi somente um acidente. Neste momento, minha mãe interveio e manifestou seu entusiasmo por nossa capacidade musical. Ela disse a ele que nós tínhamos talento e que ele deveria escutar-nos. Ela continuou puxando-nos, assim um dia o pai se dispôs a escutar-nos e gostou do que ouviu. Tito, Jackie e Jermaine começaram a ensaiar juntos seriamente. Um par de anos mais tarde, quando eu tinha cerca de cinco anos, mamãe apontou para meu pai que eu era um bom cantor e poderia tocar os bongôs. Tornei-me um membro do grupo. 

Desde então meu pai decidiu que o que estava acontecendo em sua família era sério. Gradualmente ele começou a gastar menos tempo com o The Falcons e mais com nós. Tínhamos um ensaio juntos e ele nos deu dicas e nos ensinou técnicas na guitarra. Marlon e eu não tínhamos idade suficiente para tocar, mas assistíamos quando meu pai ensaiava os irmãos mais velhos e aprendíamos quando assistíamos. A proibição em usar a guitarra do pai ainda se mantinha quando ele não estava por perto, mas meus irmãos amavam usá-las quando eles podiam. A casa na rua Jackson  estava explodindo com a música. O pai e a mãe haviam pago por aulas de música para Rebbie e Jackie quando eram crianças pequenas, de modo que eles tinham uma boa base. O resto de nós tivemos aulas de música e conjunto nas escolas de Gary, mas não muitas práticas eram suficientes para aproveitar toda aquela energia.

The Falcons ainda estavam ganhando dinheiro, contudo,   aquele dinheiro extra de seus shows não frequentes era importante para nós. Era suficiente para manter comida na mesa para uma extensa família, mas não o suficiente para nos dar coisas que não eram necessárias. A mãe estava trabalhando tempo parcial na Sears e o pai estava ainda trabalhando na usina, e ninguém estava passando fome, mas, eu penso, olhando prá trás, ao evocar esta época me dá a sensação de que, no final, as coisas deviam parecer um grande negócio.

Um dia o pai estava atrasado na volta para casa e a mãe começou a ficar preocupada. Quando ele chegou, a mãe estava pronta a direcionar sua mente a ele, algo que nós, os meninos, não nos importávamos de assistir de vez em quando, simplesmente para ver como ele se sairia, mas
quando ele colocou a cabeça na porta, vimos que tinha um olhar travesso em seu rosto e que estava escondendo algo por trás. Ficamos todos em choque quando mostrou uma guitarra vermelha brilhante, um pouco menor que a do armário. Estávamos todos esperançosos que poderíamos pegar a antiga. Mas o pai disse que a nova guitarra era para Tito. Nos nos reunimos todos em volta para admirá-la, enquanto o pai dizia a Tito que tinha de compartilhá-la com quem quisesse praticar. Não estávamos autorizados a levá-la à escola para mostrá-la. Era um presente significativo e aquele dia foi uma ocasião importante para a família Jackson.

A mãe estava feliz por nós, mas ela também conhecia seu marido. Estava mais consciente que nós das grandes ambições e planos que ele tinha conosco. Ele tinha começado a falar a ela à noite após termos ido deitar. Ele tinha sonhos e esses sonhos não terminavam com uma guitarra. Logo estávamos lidando com equipamentos, não somente presentes. Jermaine conseguiu um baixo e um amplificador. Havia maracas para Jackie. (maraca é um instrumento de percussão -  nota do blog)Nosso quarto e nossa sala começaram a parecer uma loja de música. Às vezes tinha ouvido o pai e a mãe discutirem quando o  assunto do dinheiro era trazido porque todos aqueles instrumentos e acessórios significavam que teríamos que passar sem algo de que necessitávamos cada semana. Papai foi persuasivo, firme e ele não perdia um truque.


Tivemos até microfones em casa. Parecia um real luxo naquela época, especialmente para uma mulher que estava tentando esticar um orçamento muito pequeno, mas eu vim a perceber que ter aqueles microfones em nossa casa não era somente uma tentativa de manter as aparências ou  alguém em competições noturnas amadoras. Os microfones estavam ali para ajudar a nos preparar. Eu vi as pessoas em show de talentos, que provavelmente soavam grandes em casa, mas caíam no momento em que se colocavam frente a um microfone. Outros começavam a gritar nas músicas para provar que não necessitavam dos microfones. Eles não tinham a vantagem que nós tínhamos-uma vantagem que somente a experiência pode dar a você. Eu penso que isso provavelmente algumas pessoas tiveram inveja porque eles poderiam dizer que nossa habilidade com os microfones nos deu uma vantagem. Se isso fosse verdade, nós fizemos tantos sacrifícios - em nosso tempo livre, no trabalho escolar e amigos - que ninguém tinha direito de ter inveja. Estávamos nos tornando muito bons, mas estávamos trabalhando como pessoas que tinham o dobro de nossa idade.

Johnny Jackson está tocando as baterias nesta primeira fotografia de publicidade

Enquanto eu assistia meus irmãos mais velhos, incluindo Marlon nos bongôs, o pai conseguiu dois jovens chamados Johnny Jackson e Randy Rancifer para que tocassem a bateria e o órgào. Motown diria mais tarde que eles eram nossos primos, mas aquilo era somente um embelezamento por parte do pessoal das relações públicas que queriam nos fazer parecer uma grande família. Tínhamos nos tornado um real grupo! Eu era como uma esponja, assistindo a todos e tentando aprender tudo o que eu podia. Absorvia tudo quando meus irmãos ensaiavam ou tocavam em eventos de caridade e centros comerciais. Eu estava mais fascinado  quando assistia Jermaine porque ele era o cantor naquele momento e era um grande irmão para mim - Marlon, pela idade, era bem proximo a mim também. Foi Jermaine quem me levava ao jardim de infância e cujas roupas eram herdadas para mim.. Quando ele fazia algo, eu tentava imitá-lo. Quando tinha êxito nisso meus irmãos e o pai riam, mas quando comecei a cantar eles ouviram. Eu estava cantando em uma voz de bebê,  imitando somente sons em seguida. Era tão jovem que não sabia o que muitas das palavras significavam, mas quanto mais eu cantava, melhor me saía.

Eu sempre soube dançar. Eu assistia os movimentos de Marlon porque Jermaine tinha o grande baixo para transportar, mas também porque eu poderia manter contato com Marlon, que era apenas um ano mais velho que eu.  Logo estava fazendo mais do que cantar em casa e preparando-me para me juntar aos meus irmãos em público. Através de nossos ensaios, todos nós estávamos percebendo os nossos pontos fortes e fracos como membros do grupo e a mudança de responsabilidades estava produzindo de modo natural.

Retornando para casa em nossa pequena casa em Gary após nossos sucessos. A recepção foi esmagadora.

A casa de nossa família em Gary era pequena, na verdade tão somente contava três quartos, mas naquela época  parecia muito maior para mim. Quando você é assim jovem o mundo todo parece tão grande que um pequeno quarto pode parecer quatro vezes o seu tamanho. Quando nós voltamos a Gary anos mais tarde, estávamos todos surpresos o quão pequena aquela casa era. Eu havia lembrado dela como sendo grande, mas você podia dar cinco passos da porta da frente e você sairia pela porta de trás. Realmente não era maior que uma garagem, mas quando vivemos ali parecia bom para nós crianças. Você vê as coisas de uma diferente perspectiva  quando você é jovem. 

Nossos dias de escola em Gary são lembranças confusas prá mim. Eu lembro vagamente sendo deixado em frente de minha escola no primeiro dia de jardim de infância e lembro claramente detestando isso. Não queria que minha mãe me deixasse e, naturalmente, não queria estar ali.

Com o tempo me adaptei, como todas as crianças fazem, e aprendi a amar meus professores, especialmente as mulheres. Elas sempre foram muito doces conosco e elas simplesmente me amavam. Aquelas professoras eram tão maravilhosas; eu passava de uma série para a seguinte e elas todas choravam e me abraçavam e me diziam o quanto elas sentiam em me ver deixar suas classes. Eu era tão louco por minhas professoras que cheguei a roubar as jóias de minha mãe para presenteá-las. Elas se sentiam muito tocadas, mas eventualmente minha mãe descobriu e pôs fim a minha generosidade com suas coisas. Essa necessidade que tinha de dar-lhes algo em troca do que eu estava recebendo era a medida de como eu amava a elas e aquela escola. 

Um dia, na primeira série, eu participei em um programa que foi apresentado diante de todo o colégio. Cada um de nós em cada classe tinha que fazer alguma coisa, então fui para casa e discuti isso com meus pais. Decidimos que usaria calças pretas e uma camisa branca e cantaria 'Climb Every Mountain', de The Sound Of Music. Quando terminei aquela música a reação no auditório tomou conta de mim.
O aplauso foi estrondoso e as pessoas estavam sorrindo; alguns deles estavam de pé. Minhas professoras estavam chorando e eu simplesmente não podia acreditar. Havia feito todos eles felizes.  Era um sentimento profundo. Eu me senti um pouco confuso também porque não pensei que tivesse feito nada de especial. Estava somente cantando da forma que eu cantava em casa toda noite. Quando você está  performando, você não percebe como soa ou como está comunicando. Você só abre a boca e canta.


 Um de nossos primeiros shows de talentos onde nós ganhamos um troféu. (foto acima)
 Ensaiando após a escola
(foto abaixo)

Logo o pai estava nos preparando para concursos de talentos. Ele era um grande treinador e gastou muito de dinheiro e tempo trabalhando com a gente. Talento é algo que Deus dá a uma pessoa, mas nosso pai ensinou-nos como cultivá-lo. Eu penso que nós também tínhamos um certo instinto para o show business. Amávamos performar e colocávamos tudo o que tínhamos nisso. Ele sentava em casa conosco todos os dias depois da escola e nos treinava. Nós apresentávamos para ele e ele nos criticava. Se você distraísse, você apanhava, às vezes com um cinto, às vezes com um pau. Meu pai era realmente rigoroso com nós - realmente rigoroso. Marlon era um que estava todo o tempo em apuros. Por outro lado, eu apanhava por coisas que aconteciam principalmente fora do ensaio. O pai me fazia tão furioso e magoado que eu tentava voltar para ele e batia ainda mais. Eu pegava um sapato e jogava-o nele, ou somente contra-atacava movendo meus punhos. Aquilo é porque eu recebi mais do que todos meus irmãos juntos. Eu contra-atacava e meu pai me mataria somente para rasgar-me. A mãe me disse que eu contra-atacava mesmo quando eu era muito pequeno, mas eu não me lembro daquilo. Lembro-me correndo para baixo das mesas para me livrar dele e fazia-o enfurecer. Nós tínhamos uma relação turbulenta.

A maior parte do tempo, contudo, nós somente ensaiávamos. Nós sempre ensaiávamos. Às vezes, tarde da noite, tínhamos tempo para jogar ou brincar com nossos brinquedos. Podia ser um jogo de esconde ou pular corda, mas isso era tudo. A maior parte de nosso tempo era ocupada com trabalho. Eu lembro claramente correndo para dentro de casa com meus irmãos quando meu pai chegava em casa porque nós estaríamos em grande problema se não estivéssemos prontos para começar os ensaios pontualmente.

Através disso, minha mãe era completamente solidária. Ela tinha sido quem primeiro reconheceu nosso talento e continuou a nos ajudar a realizar nosso potencial. É difícil imaginar que teríamos chegado até onde chegamos sem seu amor e bom humor. Ela se preocupava sobre o stress que estávamos e as longas horas de ensaios, mas nós queríamos ser o melhor que poderíamos ser e realmente amávamos música.

Música era importante em Gary. Tínhamos nossa própria estação de rádio e boates, e não faltavam pessoas que quisessem estar ali. Após o pai dirigir nosso ensaio de sábado à tarde, ele ia ver um show local ou se dirigia a Chicago para ver alguém performar. Ele sempre assistia coisas que poderiam ajudar-nos em nossa carreira. Ele chegava em casa e contava-nos o que tinha visto e quem estava fazendo o quê. Estava a par das últimas novidades, tanto se se tratava de um teatro local que organizava concursos que pudéssemos entrar, ou Cavalcade of Stars show (show de variedades da tv nos EUA dos anos 50 - nota do blog) com grandes números de cujos vestidos ou movimentos pudéssemos adaptar. Eu não vía o pai até voltar do Salão do Reino aos domingos, mas, tão logo eu entrava em casa, ele me contava o que havia visto na noite anterior. Garantiu-me que eu poderia dançar sobre uma perna como James Brown somente se eu tentasse este passo. Aí estava eu, recém-chegado da igreja e envolvido no show business.

Começamos a colecionar troféus com nossos números quando eu tinha seis anos. Nossa programação estava definida; o grupo caracterizou-me o segundo da esquerda, de frente à audiência, Jermaine depois de mim, e Jackie à minha direita. Tito e sua guitarra se situava à direita com Marlon ao seu lado. Jackie estava crescendo e já era mais alto que Marlon e eu. Mantivemos esta posição concurso após concurso e trabalhamos bem. Enquanto outros grupos que encontrávamos brigavam entre si e desistiam, nós estávamos nos tornando mais polidos e experientes. As pessoas em Gary que vinham regularmente ver os shows de talentos mostraram conhecer-nos, assim nós tentávamos nos superar e surpreendê-los. Não queríamos que começassem a sentir-se entediados de nossos números. Sabíamos que mudar era sempre bom, que isso nos ajudava a crescer, assim, nunca tivemos medo disso.

Ganhar uma noite amadora ou show de talento em um número de dez minutos, duas canções, consumia tanta energia como um concerto de noventa minutos. Estou convencido que porque não há espaço para erros, sua concentração te consome mais e mais em uma ou duas canções que quando tem o luxo de doze ou quinze em uma apresentação. Esses shows de talentos foram nossa educação profissional. Às vezes viajávamos centenas de quilômetros para apresentar uma ou duas canções e esperar que a multidão não estivesse contra nós porque não éramos talentos locais. Estávamos competindo contra pessoas de todas as idades e habilidades, de números rápidos a comediantes, a outros cantores e dançarinos como nós. Tínhamos que pegar aquela audiência e mantê-la. Nada era feito ao acaso, assim, roupas, sapatos, cabelo, tudo tinha que ser a forma como o pai planejava. Realmente parecíamos incrivelmente profissionais. Após todo esse planejamento, se nós realizássemos as músicas da forma como havíamos ensaiado, os prêmios chegariam por si mesmos. Isso era verdade mesmo quando estávamos na parte do Wallace High da cidade onde os vizinhos tinham seus próprios artistas e torcida e estávamos desafiando-os em seu próprio território. Naturalmente artistas locais sempre tinham seus próprios fãs leais, então sempre que saíamos de nosso território e íamos a outro, era muito difícil. Quando o mestre de cerimônia colocava sua mão sobre nossas cabeças para a "medida de aplauso", nós queríamos ter certeza da multidão saber que tínhamos dado mais do que ninguém.

Como músicos, Jermaine, Tito e o resto de nós estávamos sob tremenda pressão. Nosso gerente era o tipo que nos recordava que James Brown multava seus "Famous Flames" se eles se esquecessem uma frase ou desafinassem uma nota durante uma apresentação. Como vocalista principal, eu sentia que eu - mais do que os outros - não poderia permitir-me uma "noite livre". Posso lembrar estando no palco à noite depois de estar na cama doente o dia todo. Era difícil me concentrar nessas ocasiões já que eu sabia que meus irmãos e eu tínhamos que fazer todas as coisas tão bem, que eu poderia ter realizado as rotinas dormindo. Em horas como aquelas, tinha que me lembrar de não olhar para alguém que eu conhecia na platéia ou ao mestre de cerimônia. Cada um deles poderia distrair um jovem artista. Tínhamos músicas que as pessoas conheciam da rádio ou músicas que meu pai sabia que já eram clássicas. Se você errasse, você ouviria sobre isso porque os fãs conheciam essas músicas e sabiam como se supunha soar. Se você fosse mudar um arranjo, era necessário soar melhor que o original.

Vencemos o show de talentos em toda a cidade quando eu tinha oito anos com nossa versão da músicas do Templations, "My girl". A competição foi realizada a apenas alguns quarteirões de distância da Rosevelt High.  Desde que soaram as notas de abertura do baixo de Jermaine e os primeiros solos da guitarra de Tito todos os cinco de nós cantando o refrão, tínhamos pessoas de pé por toda a música. Jermaine e eu revezávamos versos, enquanto Marlon e Jackie dançavam. Foi uma sensação maravilhosa para todos nós passar aquele troféu, o maior até então, indo e voltando entre nós. Eventualmente foi colocado no banco da frente como um bebê e voltamos prá casa com o pai dizendo-nos: "Quando vocês fazem como fizeram esta noite, não podem deixar de dar a vocês."

Éramos agora os campeões da cidade de Gary e Chicago era nosso próximo objetivo porque era a área que oferecia o trabalho mais estável e, de longe, a melhor recomendação. Começamos a planejar seriamente nossa estratégia. O grupo do meu pai tocava o som de Chicago de Muddy Waters and Howlin' Wolf, mas ele já tinha a mente aberta o suficiente para ver que os mais otimistas, sons comerciais que atraíam a nós crianças, tinham muito a oferecer. Tínhamos sorte porque algumas pessoas desta idade não eram daquele estilo. De fato, éramos músicos que pensavam que as músicas dos anos sessenta estava abaixo do nível de pessoas de sua idade, mas não o pai. Ele reconheceu grandes músicas quando as ouvia, mesmo nos dizendo que viu o grande grupo doo-wop de Gary, os Spaniels, quando eles eram estrelas com poucos anos acima de nós. Quando Smokey Robinson do The Miracles cantou uma música como "Tracks of My Tears" ou "Ooo, Baby Baby", ele tinha ouvido quão difícil era prá nós.

Os anos sessenta não deixaram Chicago para trás musicalmente. Grandes cantores como The Impressions com Curtis Mayfield, Jerry Butler, Major Lance, e Tyrone Davis estavam tocando por toda a cidade nos mesmos lugares que nós estávamos. Neste ponto, nosso pai estava dirigindo-nos em tempo integral, com somente algumas horas na fábrica. Mamãe tinha algumas dúvidas sobre a firmeza de sua decisão, não porque ela pensava que não éramos bons, mas porque ela não conhecia mais ninguém que estava gastando a maior parte de seu tempo tentando introduzir seus filhos no show business. Ela ficou ainda menos entusiasmada quando o pai contou a ela que tinha nos inscrito como uma apresentação regular no Mr. Lucky's, um clube noturno de Gary. Estávamos sendo forçados a passar nossos fins de semana em Chicago e outros lugares tentando ganhar um número cada vez maior de shows amadores e estas viagens eram caras, então o trabalho no Mr. Lucky's era uma forma de fazer isso tudo possível. A mãe estava surpresa com a resposta que estávamos tendo e estava muito satisfeita com os prêmios e a atenção, mas se preocupava muito conosco. Ela se preocupava comigo por causa da idade. "Isto é muito para a vida de um menino de nove anos," ela diria olhando intensamente para meu pai.

Eu não sei o que meus irmãos e eu esperávamos, mas o público dos clubes noturnos não eram os mesmos da Rosevelt HIgh. Tocávamos entre comediantes ruins, organizadores de cocktails, strippers. Com minha formação  de Testemunha (Testemunha de Jeová, a religião de Michael - nota do blog), a mãe estava preocupada que eu estava saindo com pessoas erradas e sendo apresentado a coisas que seria melhor eu aprender muito mais tarde na vida. Ela não precisava se preocupar; somente um olhar para alguma daquelas strippers, não iria conseguir me interessar em problema - certamente não aos nove anos de idade! Aquele era um terrível modo de viver, pensei, e nos fez mais determinados a seguir em frente no circuito e tão longe como podíamos daquela vida. 

Estar no Mr. Lucky significava que, pela primeira vez em nossas vidas, tivemos um show inteiro a fazer - cinco aparições por noite, seis noites por semana - e se o pai pudesse conseguir alguma coisa prá nós fora da cidade para a sétima noite, ele estava indo fazê-lo. Estávamos trabalhando duro, mas o público do bar não eram ruins para nós. Eles gostavam de James Brown e Sam e Dave, tanto como nós e, além disso, éramos algo extra que vinha grátis a eles com a bebida e o consumo, então eles ficavam surpresos e alegres. Mesmo nós tivemos algum divertimento com eles em um  número, a música de Joe Tex "Skinny Legs and All." (Joe Tex foi um cantor/compositor de rap dos anos 1960 e 1970 - nota do blog). Começávamos a música e em determinado momento durante a música eu iria para a platéia,  esconder debaixo das mesas, e puxar as saias das senhoras para cima para olhar embaixo. As pessoas jogavam dinheiro enquanto eu escapava, e quando começava a dançar,  recolhia todos os dólares e moedas que tinham deixado no chão e colocava nos bolsos da minha jaqueta.

Eu realmente não estava nervoso quando começamos a tocar em clubes por causa de toda a experiência que tive com audiência de show de talentos. Estava sempre pronto para sair e performar, você sabe, somente fazer isto - cantar e dançar e ter alguma diversão.

Naqueles dias trabalhamos em mais de um clube que tinha strippers. Usualmente ficava nos bastidores de um destes lugares em Chicago e assistia uma senhora cujo nome era Mary Rose. Eu devia ter nove ou dez anos. Esta garota tirava suas roupas e sua lingerie e jogava para o público. Os homens buscavam-nas, cheiravam-nas e gritavam. Meus irmãos e eu assistíamos tudo isso, captávamos, e meu pai não dava importância. Estávamos muito expostos fazendo esse tipo de circuito. Em um lugar na parede do camarim dos músicos havia um pequeno buraco que também coincidia com o vestiário das senhoras. Você podia espiar através deste buraco e eu vi coisas que nunca esquecerei. Caras daquele circuito eram tão selvagens, eles faziam coisas como pequenos furos para dentro das paredes do banheiro das senhoras o tempo todo. Naturalmente, estou certo que meus irmãos e eu estávamos brigando para poder olhar através do buraco. "Saia do caminho, é minha vez!" Empurrávamos uns aos outros para ocupar o lugar.

Mais tarde, quando fizemos o Apollo Theater em Nova Iorque, eu vi algo que realmente me surpreendeu porque eu não sabia que coisas como aquela existiam. Já tinha visto bastante um bom número de strippers, mas naquela noite aquela garota com lindos cílios e longos cabelos saiu e fez sua rotina. Ela realizou uma grande performance. De-repente, ela tirou a peruca, tirou um par de grandes laranjas para fora de seu sutiã e revelou que era um cara de face enérgica coberto por toda aquela maquiagem. Aquilo me surpreendeu. Eu era só uma criança e não podia sequer conceber uma coisa como aquela. Mas olhei para a platéia do teatro e estavam envolvidos no número, aplaudindo e torcendo loucamente. Eu sou somente uma pequena criança, nos bastidores assistindo esta coisa louca.

Eu estava desintegrado.

Como eu disse, recebi muito em educação como uma criança. Mais do que a maioria. Talvez isto me deu liberdade para concentrar-me em outros aspectos da minha vida como um adulto.


Um dia, não muito depois de termos feito sucesso em clubes de Chicago, o pai trouxe para casa uma gravação de algumas canções que nunca tínhamos ouvido antes. Estávamos acostumados a tirar músicas populares de rádio, então estávamos curiosos do por quê ele começou a tocar essas canções repetidas vezes, apenas um cara cantando tão bem com alguns acordes de guitarra no fundo. O pai nos contou que o homem na gravação não era realmente um artista, mas um compositor que possuía um estúdio de gravação em Gary. Seu nome era Mr. Keith, ele tinha nos dado uma semana para praticar suas músicas para ver se nós podíamos fazer uma gravação delas.  Naturalmente estávamos entusiasmados. Queríamos fazer um disco, qualquer disco.

Trabalhamos rigorosamente no som, ignorando as rotinas de dança que trabalhávamos normalmente para uma nova música. Não era muito divertido fazer uma música que nenhum de nós conhecia, mas já éramos profissionais o suficiente para ocultar nosso desapontamento e dar tudo o que podíamos  à música. Quando estávamos prontos e sentimos que tínhamos feito nosso melhor com o material, o pai nos gravou após umas poucas tentativas e mais umas poucas conversas estimulantes, claro. Depois de um ou dois dias tentando descobrir se Mr. Keith havia gostado da gravação que tínhamos feito para ele, o pai de-repente apareceu com mais canções dele para que aprendêssemos para nossa primeira sessão de gravações.

Mr. Keith, como o pai, era um trabalhador de fábrica que amava música, somente que ele estava mais a par de gravação e final de negócios. Seu estúdio e gravadora chamava Steeltown. Olhando de volta a tudo isso, eu percebo que Mr. Keith estava tão animado quanto nós. Seu estúdio era no centro da cidade e fomos em uma manhã de sábado antes do "The Road Runner Show", meu show favorito na época (série de desenhos animados produzidos pela Warner Bros em diversos períodos entre 1948 e 1973 - nota do blog). Mr. Keith recebeu-nos na porta e abriu o estúdio. Mostrou uma pequena cabine de vidro com todos os tipos de equipamentos e explicou o que cada um deles realizava. Não parecia que teríamos que depender mais de fitas de gravação, pelo menos não nesse estúdio. Coloquei alguns grandes fones de metal que chegavam até a metade da minha nuca e tentei fazer me parecer pronto para qualquer coisa.

Como meus irmãos foram descobrir onde ligar seus instrumentos e ficar, alguns backing vocals e um conjunto de instrumentos chegaram. Primeiro eu pensei que estavam lá para gravar conosco. Olhamos para o pai, mas ele não mudou sua expressão. Ele provavelmente tinha conhecimento sobre isso e aprovava. Mesmo assim, pessoas não sabiam jogar surpresas no pai. Disseram-nos para ouvir Mr. Keith, que nos instruiria enquanto estávamos na cabine. Se fizéssemos como ele disse, o registro sairia por si mesmo.


"Big Boy" foi a nossa primeira canção gravada

Depois de poucas horas, finalizamos a primeira música de Mr. Keith. Alguns dos backing vocals e trompetistas ainda não tinham feito gravações e encontraram dificuldades, mas eles também não tinham um perfeccionismo para um gerente, assim, eles não estavam acostumados a fazer coisas repetidas vezes da forma como nós estávamos. Em horas como essas que nós percebemos o quão duro o pai trabalhava para nos consumar profissionais. Voltamos nos próximos sábados colocando as músicas que ensaiamos durante a semana e levando cada vez uma nova fita do sr. Keith para casa. Um sábado, o pai ainda trouxe sua guitarra para se apresentar conosco. Foi a primeira e única vez que ele atuou conosco. Depois que os discos foram prensados, Mr. Keith nos deu algumas cópias, assim que, poderíamos vendê-las entre os números e depois dos shows. Sabíamos que esta não era a forma como os grandes grupos  faziam isso, mas todo mundo tinha que começar de algum lugar e, naqueles dias, ter um registro com o nome de seu grupo era algo muito bom. Estávamos muito felizes.

Aquele primeiro single na Steeltown, "Big Boy", tinha uma linha de significado. Era uma bela canção sobre um menino que queria se apaixonar por alguma menina. Claro, a fim de obter a imagem completa, você tem que imaginar um pequeno garoto de nove anos cantando esta canção. As palavras diziam que eu não queria ouvir mais nenhum conto de fadas, mas na verdade eu era muito jovem para entender os verdadeiros significados da maioria das palavras nessas canções. Eu somente cantava o que eles me davam.

Quando aquele registro começou a tocar na rádio em Gary, nos tornamos um grande negócio em nossa vizinhança. Ninguém podia acreditar que tínhamos nosso próprio disco. Tivemos dificuldade de acreditar nisso.

Depois daquela primeira gravação na Steeltown, começamos a procurar por todos os grandes shows de talentos de Chicago. Usualmente os outros intérpretes olhavam-me com cuidado quando eles me conheciam porque eu era tão pequeno, particularmente, os que foram depois de nós. Um dia Jackie estava dando gargalhadas como se alguém tivesse contado a ele a piada mais divertida do mundo. Este não era um bom sinal justo antes do show e eu pude contar ao pai que estava preocupado que ele ia estragar o show. O pai foi falar com ele, mas Jackie sussurrou alguma coisa em seu ouvido, e logo o pai estava rindo, com as mãos na cintura. Queria saber a piada também. Meu pai disse com orgulho que Jackie tinha ouvido o intérprete principal conversando entre eles. Um cara disse: "É melhor não deixar o Jackson 5 nos cortar esta noite com o anão que eles têm."

Fiquei chateado no início porque meus sentimentos foram feridos. Pensei que estavam sendo mesquinhos. Não podia evitar de ser o menor, mas logo todos os outros irmãos estavam rindo também. O pai explicou que eles não estavam rindo de mim. Disse-me que eu deveria estar orgulhoso, que o grupo estava falando lixo porque eles pensavam que eu era um adulto posando como uma criança como um dos Munchkins no Mágico de Oz. O pai disse que se eu tinha aqueles caras falando como os garotos da vizinhança que nos causavam danos em Gary, então nós tínhamos Chicago na corrida.


 Na NAACP Image Awards

 Performando juntos nos primeiros anos

Nós ainda tínhamos um bom caminho para percorrer. Depois de tocarmos em alguns bons clubes em Chicago, o pai assinou para que atuássemos nas competições noturnas amadoras no Royal Theater da cidade. Ele tinha ido ver B.B.King no Regal na noite em que ele fez o seu famoso álbum ao vivo. Quando o pai deu a Tito aquela afiada guitarra vermelha anos antes, havíamos feito brincadeira com ele pensando em garotas cujo nome ele depois poderia dar a sua guitarra, como Lucille, de B.B. King.

Vencemos aquele show por três semanas seguintes com uma nova música a cada semana para manter os membros  regulares do público na expectativa. Alguns dos outros artistas reclamaram que era ganancioso manter-nos  voltando outra vez, mas depois eles fizeram o mesmo que nós. Havia uma política de que se você vencesse a noite amadora três vezes seguidas, você deveria ser convidado a voltar para fazer um show pago para milhares de pessoas, não dezenas como as audiências que estávamos tocando em bares. Tivemos aquela oportunidade e o show foi encabeçado por Gladys Knight and The Pips, que estavam lançando uma nova canção que ninguém conhecia de nome "I Heard It Through the Grapevine." Foi uma noite inebriante.

Depois de Chicago tínhamos mais um grande show amador que nós realmente sentimos que precisávamos vencer: o Apollo Theater em Nova Iorque. Muitas pessoas de Chicago pensavam que vencer no Apollo era somente um amuleto de boa sorte e nada mais, mas o pai viu que era muito mais do que aquilo. Ele sabia que Nova Iorque tinha um alto calibre de talento justamente como Chicago e sabia que havia mais pessoas gravando e músicos profissionais em Nova Iorque do que Chicago. Se pudéssemos fazer isso em Nova Iorque, poderíamos fazer em qualquer lugar. Aquilo é o que significava para nós uma vitória no Apollo.

Chicago tinha enviado um tipo de relatório nosso para Nova Iorque e nossa reputação era tal que o Apollo introduziu-nos nas finais, ainda que não havíamos estado em nenhuma das competições preliminares. Naquela época, Gladys Knight já tinha conversado conosco sobre a vinda para Motown, como fizera Bob Taylor, um membro do Vancouvers, de quem meu pai tinha se tornado amigo. Papai tinha dito a eles que estaríamos felizes em fazer uma audição para a Motown, mas aquilo era em nosso futuro.

Chegamos ao Apollo na rua 125 cedo o suficiente para conseguir uma visita guiada. Andamos pelo teatro e contemplamos todas as fotos das estrelas que tinham tocado lá, brancos assim como negros. O gerente concluiu mostrando-nos a sala de vestido, mas até então, eu havia encontrado fotos de todos os meus favoritos.

Enquanto meus irmãos e eu pagamos tributos no chamado "abridores de circuito", eu observava atentamente todas as estrelas porque queria aprender tanto quanto eu podia. Eu olhava para os seus pés, a forma como eles moviam seus braços, a maneira como seguravam um microfone, tentando decifrar o que eles estavam fazendo e porque estavam fazendo. Depois de estudar James Brown dos bastidores, eu sabia cada passo, cada gemido, cada salto e giro. Tenho que dizer que ele dava uma performance que deveria esgotar você, desgastar você emocionalmente. Toda sua presença física, o fogo saindo pelos seus poros, era fenomenal. Você sentiria cada gota de suor em seu rosto e você sabia o que ele estava passando. Nunca vi alguém atuar como ele. Inacreditável, realmente. Quando assistia alguém que eu gostava, eu estaria lá. James Brown, Jackie Wilson, Sam e Dave, os O'Jays, todos eles usavam realmente trabalhar um público. Posso ter aprendido mais de assistir Jackie Wilson que nehum outro ou qualquer coisa mais. Tudo isso foi uma parte muito importante da minha educação.

Costumávamos ficar nos bastidores, atrás das cortinas, assistindo todo mundo sair depois da apresentação, e eles todos suados. Eu somente ficava de lado em reverência e assistindo-os passar. E todos eles usavam esses lindos sapatos de couro. Todo meu sonho parecia centrar-se em ter  um par de sapatos de couro. Lembro-me estando inconsolável porque não fabricavam em tamanhos de meninos pequenos. Fui de loja em loja procurando por sapatos de couro e eles diziam: "nós não fazemos no tamanho pequeno." Estava tão triste porque queria sapatos que pareciam a mesma forma que sapatos de palco, finos e brilhantes tornando-se vermelho e laranja quando as luzes apontavam para eles. Oh, como eu queria algum sapato de couro como o que Jackie Wilson usava.

A maior parte do tempo eu estava sozinho nos bastidores. Meus irmãos estavam no andar de cima comendo e conversando e eu ficava embaixo nos bastidores assistindo o show,  agachado, segurando a cortina empoeirada e mal cheirosa. Quero dizer, eu realmente assisti cada passo, cada ação, cada volta, cada giro, cada rotação, cada ranger, cada emoção, cada movimento de luz. Aquela era minha educação e minha diversão. Estava sempre lá quando tinha tempo livre. Meu pai, meus irmãos, outros músicos, todos eles sabiam onde me encontrar. Eles me provocavam sobre isso, mas eu estava tão concentrado no que estava vendo ou em lembrar o que eu já tinha visto, que eu nem me importava. Lembro-me de todos aqueles teatros: o Regal, o Uptown, o Apollo - muitos para citar. O talento que saía daqueles lugares é de proporções míticas. A grande educação no mundo é assistir os mestres trabalharem. Você não pode ensinar uma pessoa o que aprendi somente parando e assistindo. Alguns músicos  - Springsteen e U2, por exemplo - podem sentir que tiram a educação deles das ruas. Eu sou um artista do coração. Eu tive a minha a partir do palco.


Jackie Wilson estava na parede do Apollo. O fotógrafo capturou-o com a perna levantada, torcida, mas não fora da posição para pegar o pedestal do microfone que ele movimentava para trás e para frente. Ele poderia estar cantando letra triste como "Lonely Teardrops", e ainda tinha o público tão focado com sua dança que ninguém poderia se sentir triste ou solitário.

A foto de Sam e Dave estava no corredor de baixo, próximo de uma velha grande banda. O pai tinha se tornado amigo com Sam Moore. Lembro-me de ter tido a grata surpresa com ele sendo tão bom prá mim quando o conheci pela primeira vez. Eu tinha cantado sua música por tanto tempo que pensei que ele queria o fone em meus ouvidos. E não muito longe deles estava o "Rei de todos eles", Mr. Dynamite, ele mesmo", James Brown. Antes dele chegar, um cantor era um cantor, e um dançarino era um dançarino. Um cantor pode ter dançado e um dançarino pode ter cantado, mas, a menos que você fosse Fred Astaire ou Gene Kelly, voê provavelmente fazia uma melhor que outra, especialmente em uma performance ao vivo. Mas ele mudou tudo aquilo. Nem holofotes poderia acompanhá-lo quando ele derrapava no palco. Você tinha que iluminá-lo! Eu queria ser tão bom.


Vencemos uma competição amadora da noite no Apollo, e eu senti como voltar a estas fotos nas paredes e pensando em minhas "professoras". O pai estava tão feliz que disse que poderia ter voado de volta a Gary aquela noite. Ele estava no topo do mundo e assim estávamos nós. Meus irmãos e eu tínhamos nos tornado ases e esperávamos poder pular um "grau". Eu certamente percebi que não estaríamos fazendo show de talentos e junto com strip por muito tempo.


No verão de 1968 fomos introduzidos à música de um grupo famíliar que iria mudar nosso som e nossas vidas. Eles todos  não tem o mesmo último nome, eles eram negros e brancos, homens e mulheres, e eram chamados Sly and Family Stone. Eles tinham alguns sucessos incríveis no decorrer dos anos, como "Dance to the Music", "Stand", "Hot Fun in the Summertime." Meus irmãos apontavam para mim quando ouviam a linha sobre o anão de pé e agora eu ria junto. Nós ouvimos todas estas canções do disco, mesmo nas estações de rock. Eles foram uma tremenda influência sobre todos nós Jacksons e nós devemos muito a eles.


Depois do Apollo, nos mantivemos tocando com um olho no mapa e um ouvido no telefone. A mãe e o pai tinham uma regra sobre não mais do que cinco minutos por chamada, mas quando voltamos do Apollo, mesmo cinco minutos era muito tempo. Tínhamos de manter a linha liberada em caso de alguém de uma gravadora querer entrar em contato conosco. Vivíamos com medo de que eles pegassem a linha ocupada. Queríamos ouvir de uma gravadora em particular e, se eles chamassem, queríamos responder.


Meu amor por chapéus começou muito antes de "Billie Jean"

Enquanto esperávamos, descobrimos que alguém que tinha nos visto no Apollo, havia nos recomendado para "The David Frost Show" na cidade de Nova Iorque. Estávamos indo para estar na TV! Aquela foi a maior emoção que nós já tivemos. Contei a todo mundo na escola, e contei duas vezes a uns que não acreditaram em mim. Estávamos para aparecer lá em poucos dias. Estava contando as horas. Tinha imaginado toda a viagem, tentando descobrir como seria o estúdio  e como seria olhar para uma câmera de televisão.

Voltei para casa levando os deveres que meu professor havia me preparado na viagem. Tivemos mais um ensaio e então  tivemos que fazer uma seleção final de músicas. Perguntava-me que músicas iríamos fazer.


Aquela tarde, o pai disse que a viagem para Nova Iorque foi cancelada. Nós todos paramos e ficamos olhando para ele.


Estávamos chocados. Eu estava pronto para chorar. Estávamos a ponto de conseguir nossa grande chance. Como eles poderiam ter feito isso conosco? O que estava acontecendo? Por que Mr. Frost tinha mudado sua opinião? Estava cambaleando e penso que todos estavam também. "Eu cancelei", meu pai anunciou calmamente. Novamente todos nós olhamos para ele, incapazes de falar. "Motown chamou." Um arrepio percorreu minha espinha.


Eu me lembro dos dias que antecederam aquela viagem com  clareza quase perfeita. Posso me ver esperando Randy do lado de fora da classe de primeira série da escola. Era Marlon que o trazia para casa, mas nesse dia trocamos.


A professora de Randy desejou-me sorte em Detroit porque Randy tinha contado a ela que nós estávamos indo fazer uma audição para a Motown. Ele estava tão animado que eu mesmo tive que relembrar que ele realmente não sabia o que era Detroit. Toda a família falando sobre Motown e Randy nem sabia o que era uma cidade. A professora me contou que ele estava olhando para Motown no globo da sala de aula. Ela disse que na opinião dela deveríamos fazer "You Don't Know Like I Know" do modo que ela nos viu fazer no Regal em Chicago quando um grupo de professores que se dirigiram até lá para nos ver. Ajudei Randy colocar seu casaco e educadamente concordei em mantê-la em mente - sabendo que não poderíamos fazer uma canção de Sam e Dave na audição da Motown porque eles eram da Stax, uma gravadora rival. O pai contou-nos que as gravadoras levam a sério aquele tipo de coisa, assim, ele queria que soubéssemos que não poderia haver brincadeiras quando estivéssemos lá. Ele olhou para mim e disse que tinha gostado de ver seu cantor de dez anos, fazer onze.


Saímos do prédio da Garrett Elementary School caminhando devagar para casa, mas tivemos que apressar o passo. Lembro-me de ficar ansioso com um carro passar colando em nós, depois outro. Randy pegou minha mão e acenamos para o guarda de passagem. Eu sabia que La Toya teria que sair do seu caminho amanhã para levar Randy para a escola porque Marlon e eu deveria estar em Detroit com os outros.


A última vez que tocamos no Fox Theater em Detroit, saímos depois do show e voltamos direto para Gary às cinco horas da manhã. Eu dormi no carro a maior parte do caminho, assim, ir para a escola aquela manhã não foi tão ruim quanto podia ter sido. Mas no ensaio das três horas da tarde eu estava me arrastando como alguém com pesos de chumbo nos pés.


Poderíamos ter deixado aquela noite logo após nosso número, uma vez que éramos o terceiro da lista, mas isso significaria perder a primeira figura: Jackie Wilson. Eu tinha visto ele em outros palcos, mas no Fox ele e sua banda estavam em um palco elevado que levantava quando ele começava seu show. Cansado como eu estava depois da escola o dia seguinte, lembro-me tentando alguns daqueles movimentos no ensaio depois de ter praticado em frente a um grande espelho no banheiro da escola enquanto as outras crianças olhavam. Meu pai estava satisfeito e nós incorporamos esses passos em uma de minhas rotinas.


Pouco antes de Randy e eu virarmos a esquina para a rua Jackson, havia uma grande poça. Olhei para os carros, mas não havia nenhum, então, eu soltei a mão do Randy e pulei a poça, fazendo pressão com meus polegares para pular sem molhar as pontas da minha calça. Olhei de volta a Randy sabendo que ele queria fazer as coisas que eu fiz. Ele deu um passo atrás para conseguir começar a correr, mas eu percebi que aquela era uma poça muito grande, muito grande para ele atravessar sem se molhar, então, sendo um grande irmão em primeiro e um professor de dança em segundo, eu peguei ele antes que ele caísse e se molhasse.


Do outro lado da rua, as crianças da vizinhança estavam comprando doce e até mesmo alguns que estavam dando-me um tempo difícil na escola perguntaram quado nós iríamos para Motown.  Eu lhes disse e comprei doce para eles e Randy também, com minha mesada. Não queria que Randy se sentisse mal por eu ir embora.


Quando nos aproximamos de casa eu ouvi Marlon gritar. "Alguém fecha aquela porta!" O lado do nosso mini-ônibus Volkswagen estava bem aberto, e eu estremeci pensando sobre o frio que iria estar na longa viagem até Detroit. Marlon tinha nos mandado a casa e já estava ajudando Jackie carregar o ônibus com nosso material. Jackie e Tito chegaram em casa em tempo por uma vez. Eles estavam supostamente tendo práticas de basquete, mas o inverno em Indiana não tinha sido nada e estávamos ansiosos para ter um bom começo. Jackie estava no time de basquete do colégio naquele ano, e o pai gostava de dizer que a próxima vez que nós iríamos tocar em Indiana deveria ser quando Rosevelt fosse para os campeonatos estaduais. O Jackson 5 deveria tocar entre os jogos da noite e da manhã e Jackie faria o tiro de lançamento para o título. O pai gostava de provocar-nos, mas você nunca sabia o que podia acontecer com os Jacksons. Ele queria que fôssemos bons em muitas coisas, não somente música. Eu penso que talvez ele tivesse aquele impulso de seu pai, que lecionava. Eu sei que meus professores nunca foram duros conosco como ele era, e eles eram pagos para ensinar e exigir.


A mãe veio à porta e deu-nos a garrafa térmica e os sandwiches que ela tinha embalado. Eu me lembro dela me dizendo para não rasgar a camisa de vestido que ela tinha guardado para mim depois de costura-lo na noite anterior. Randy e eu ajudamos a colocar algumas coisas no ônibus e depois voltamos para a cozinha, onde Rebbie estava mantendo um olho no jantar do pai e outro na pequena Janet, que estava na cadeira alta.


A vida de Rebbie nunca foi fácil como a mais velha. Sabíamos que logo que a audição da Motown acabasse, nós descobriríamos se teríamos que mudar ou não. Se nós mudássemos, ela mudaria para o Sul com seu noivo. Ela sempre correu com as coisas quando a mãe estava na escola à noite terminando o diploma de ensino médio que lhe negaram por causa de sua doença. Eu não podia acreditar quando a mãe nos contou que estava indo pegar seu diploma. Lembro preocupando-me que ela teria que ir para a escola com crianças da idade de Jackie ou Tito e que elas ririam dela. Lembro como ela riu quando eu disse isso a ela  e como ela pacientemente explicou que estaria com outros adultos. É interessante ter uma mãe que faz lição como o resto de nós.


Carregar o ônibus foi mais fácil que o usual. Normalmente Ronnie e Johnny teriam vindo para nos dar suporte, mas os próprios músicos da Motown deveriam tocar atrás de nós, então, fomos sozinhos. Jermaine estava em nossa sala finalizando alguns de suas atribuições quando eu entrei. Sabia que ele queria tirá-las do caminho. Ele disse que nós deveríamos ir para a Motown por nós mesmos e deixar o pai,  uma vez que Jackie tinha pego a chave do motorista e estava de posse de um molho de chaves. Nós dois rimos, mas no fundo, eu não podia imaginar indo sem o pai. Mesmo nas ocasiões quando a mãe levava nossos ensaios depois da escola porque o pai não havia chegado de seu turno em casa a tempo, ainda era como tê-lo lá porque ela agia com os olhos e ouvidos dele. Ela sempre sabia o que tinha sido bom na noite anterior, e o que tinha ficado inconsistente hoje. O pai saberia disso à noite. Parecia que eles davam sinais ou alguma coisa um ao outro - O pai podia sempre dizer se nós estaríamos tocando como supúnhamos por alguma indicação invisível da mãe.

Não houve um longo adeus na porta quando saímos para a Motown. Mamãe estava acostumada com nossa ausência por dias e durante férias escolares. La Toya ficou um pouco amuada porque queria ir. Ela tinha somente nos visto em Chicago e nunca pudemos ficar tempo suficiente em lugares como Boston ou Phoenix para trazer alguma coisa a ela na volta. Penso que nossas vidas podiam parecer bastante encantadoras para ela porque ela tinha que ficar em casa e ir para a escola. Rebbie tinha suas mãos ocupadas tentando colocar Janet para dormir, mas disse adeus e acenou. Dei a Randy um último afago na cabeça e nós saímos.

O pai e Jackie olharam o mapa quando começamos a andar, a maior parte por costume, porque tínhamos ido para Detroit antes, claro. Passamos pelo estúdio de Mr. Keith no centro da cidade junto ao City Hall enquanto atravessamos a cidade. Tínhamos feito alguns demos no estúdio de Mr. Keith que o pai enviou para Motown depois do disco da Steeltown. O sol estava se ponto quando nós batemos a estrada. Marlon anunciou que se ouvíssemos nossos registros na WVON (rádio - nota do blog) isso iria nos trazer sorte. Todos nós concordamos. O pai nos perguntou se nos lembrávamos o que WVON significava enquanto ele cutucava Jackie para que este ficasse quieto. Fiquei olhando pela janela, pensando sobre as possibilidades que se seguiriam adiante, mas Jermaine interrompeu. "Voz de Negro," ele disse. Logo estávamos dando nomes a todas as estações. "WGN-World's Greatest Newspaper" (O Maior Jornal do Mundo).  A Tribuna de Chicago era o proprietário. "WLS -World's Largest Store." (Sears) - (A Maior Loja do Mundo). "WCFL..." Nós paramos, perplexos. "Chicago Federation of Labor,"(Federação do Trabalho de Chicago), o pai dsse, apontando para a garrafa térmica. Viramos para I-94, e a estação de Gary desapareceu sob a estação de Kalamazoo. Começamos a dar voltas procurando músicas dos Beatles na CKLW de Windsor, Ontário, Canadá.

Sempre tinha sido um fã do Monopoly (jogo Banco Imobiliáio -  nota do blog) em casa e lá havia alguma coisa sobre como dirigir a Motown que era um pouco como aquele jogo. No Monopoly você pode ir ao redor do tabuleiro comprando coisas e tomando decisões; o circuito de teatro onde tocamos e vencemos concursos era tipo como o tabuleiro do Monopoly cheio de possibilidades e armadilhas. Depois de todas as paradas ao longo do caminho, nós finalmente aterrizamos no Apollo Theater em Harlen, que era definitivamente o parque do lugar para jovens artistas como nós. Agora estávamos no nosso caminho, a estrada principal dirigindo-se para a Motown. Deveríamos vencer o jogo ou passaríamos ao seguinte com um extenso tabuleiro separando nosso objetivo para outro circuito?

Havia alguma coisa mudando em mim, e eu poderia sentir isso, mesmo tremendo no microônibus. Por anos, fizemos o caminho até Chicago perguntando se éramos bons o suficiente para sair alguma vez de Gary, e nós éramos. Assim, pegamos o carro para Nova Iorque, certos de que iríamos afundar se não fôssemos bons o suficiente para triunfar lá. Mesmo essas noites em Philadelphia e Washington não me tranquilizaram o suficiente para me impedir de perguntar se não havia alguém ou algum grupo que não conhecíamos em Nova Iorque que poderia nos  vencer. Quando fizemos uma audição demolidora no Apollo, finalmente sentimos que nada poderia ficar no nosso caminho. Estávamos indo para Motown e tampouco nada lá iria nos surpreender. Estávamos indo surpreendê-los, assim como sempre fizemos.

O pai tirou as instruções do porta-luvas e paramos fora da estrada, passando no final da Woodward Avenue. Não havia muitas pessoas nas ruas porque era uma noite de aulas para todos os outros.

O pai estava um pouco nervoso sobre se nossas acomodações deveriam estar ok, que me surpreendeu até eu perceber que o pessoal da Motown tinha escolhido o hotel. Nào estávamos acostumados ter as coisas feitas para nós. Gostávamos de ser nossos próprios patrões. O pai tinha sido sempre nosso agente de reserva, agente de viagem, e gerente. Quando ele não estava cuidando dos nossos arranjos, a mãe estava. Então, não era de admirar que mesmo a Motown conseguiu fazer com que o pai suspeitasse que ele deveria ter feito as reservas, que ele deveria ter tratado de tudo.

Ficamos no Gotham Hotel. As reservas tinham sido feitas e tudo estava em ordem. Havia uma TV em nossa sala, mas todas as estações tinham terminado, e com a audição às dez horas, não era o caso de ficar até mais tarde. O pai nos colocou direito na cama, trancou a porta e saiu. Jermaine e eu estávamos demasiado cansados até mesmo para conversar.

Levantamos todos na hora certa na manhã seguinte; o pai cuidou disso. Mas, na verdade, estávamos tão animados quanto ele e pulamos da cama quando ele nos chamou. A audição foi incomum para nós porque não tínhamos tocado em muitos lugares onde eles esperavam-nos ser profissional. Sabíamos que iria ser difícil julgar se estávamos fazendo bem. Estávamos acostumados com a resposta da audiência se estávamos competindo ou somente nos apresentando em um clube, mas o pai tinha contado que quanto mais  ficássemos, mais eles queriam ouvir.

Subimos na VW (Volkswagen - nota do blog) depois do leite e cereal do café. Notei que eles ofereceram aveia no menu, então eu sabia que lá havia muitas pessoas do Sul que permaneciam lá. Até então, nunca tínhamos estado no Sul e queria visitar a parte da mãe no país algum dia. Queríamos ter um senso de nossas raízes e aquelas de outras pessoas negras, especialmente depois do que tinha acontecido para Dr. King (Martin Luther King Jr, ativista político - nota do blog). Eu me lembro tão bem o dia que ele morreu. Todo mundo ficou arrasado. Nós não ensaiamos aquela noite. Eu estava no Salão do Reino com a mãe e alguns dos outros. Pessoas estavam chorando como se tivessem perdido um membro da própria família. Mesmo os homens que usualmente não se comoviam, foram incapazes de controlar sua tristeza. Eu era tão jovem para compreender toda a tragédia da situação, mas quando eu olho de volta para aquele dia agora, me faz querer chorar - por Dr. King, por sua família, e por todos nós.

Jermaine foi o primeiro a localizar o estúdio que era conhecido como Hitsville, USA. Parecia desorganizado, o  que não era a mimha expectativa. Nos perguntamos quem podia ver, que podia estar lá fazendo um registro aquele dia. O pai tinha nos treinado para deixar a ele toda a conversa. Nosso trabalho era realizar a performance como nunca havíamos feito antes. E aquilo era pedir muito, porque sempre colocamos tudo em cada performance, mas sabíamos o que ele queria dizer.

Havia muitas pessoas esperando lá dentro, mas o pai disse a senha, e um homem com camisa e gravata veio ao nosso encontro. Ele sabia cada um de nossos nomes, o que espantou-nos. Ele nos pediu para deixarmos nosso casaco lá e segui-lo. A outra pessoa apenas olhava através de nós como se fôssemos fantasmas. Perguntei quem eles eram e quais eram as suas histórias. Tinham viajado longe? Tinham eles estado lá dia após dia na esperança de entrar sem uma consulta?

Quando entramos no estúdio, um dos homens da Motown estava ajustando uma câmera de cinema. Havia uma área instalada com instrumentos e microfones. O pai sumiu  dentro de uma das cabines de som para falar com alguém. Tentei fingir que estava no teatro Fox, em cima do palco e que este foi apenas negócios como usual. Olhando em volta, eu decidi que se alguma vez eu construísse meu próprio estúdio, eu teria um microfone como um que eles tinham no Apollo, que subia do chão. Quase caí de cara no chão uma vez descendo os degraus do porão para tentar descobrir para onde o microfone foi quando desapareceu lentamente sob o chão do palco.

A última música que nós cantamos foi "Who's Lovin'You." Quando terminamos, ninguém aplaudiu ou disse uma palavra. Eu não poderia ficar sem saber, então eu soltei: "Como foi?" Jermaine silenciou-me. Os homens mais velhos que estavam atrás de nós estavam rindo de alguma coisa. Olhei para eles com a ponta dos meus olhos. "Jackson Jive, huh?" Um deles chamou com um grande sorriso no seu rosto. Eu estava confuso. Penso que meus irmãos estavam também.

O homem que havia nos levado de volta disse: "Obrigada por terem vindo." Olhamos para o rosto do pai para alguma indicação, mas ele não parecia satisfeito ou desapontado. Era ainda dia quando saímos. Pegamos a I-94 de volta a Gary, vencidos, sabendo que havia lição de casa para fazer amanhã, perguntando se tudo aquilo era o que havia para isso.

11 comentários:

  1. Nós podemos sentir a humildade do espírito de Michael enquanto ele vai narrando o início da sua história.

    Ele vai relatando a sua vida desde o seu nascimento, suas mais antigas lembranças. Quanta emoção isso deve ter trazido ao seu coração!!

    E continua generoso, não julga a ninguém em sua família, se refere a todos com carinho.

    Sua infância tão marcada pelo trabalho.. por mais que Michael amasse a música, foi muito sacrificante para uma criança viver daquela forma, sem horários corretos para dormir, frequentando ambientes não recomendados para a sua idade.. um pequeno guerreiro.

    Esses relatos em detalhes fazem parte não somente de sua história, mas da história musical do nosso mundo. Quantos artistas talentosos cruzaram o seu caminho, e todos prestam sua reverência ao talento genial de Michael. Adorável.

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    1. É verdade amiga. Ele fala de sua família de forma carinhosa, sem expor ninguém. Ele só abriu o coração para dizer que sentia falta de uma maior proximidade com o pai, mas isso, de forma alguma, ofendeu porque ele falou de forma sincera e respeitosa, e não rancorosa.

      Fica claro que ele nunca se queixou de ter que ensaiar, mas sim, de não ter uma infância como as outras crianças tiveram.

      Ele absorveu tudo desses artistas que vieram antes dele e sempre teve gratidão a eles, sendo reconhecido também.

      Ele tinha referências em todas as artes, né? Fora as referências de líderes como Kennedy, Martin Luther King, Rosevelt, Mandela e pessoas de tantos outros segmentos da sociedade no mundo afora.

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  2. Michael não poderia ter começado esse livro de forma mais linda. O primeiro parágrafo é a exata fotografia de sua alma.
    Logo de início, ele já te leva em sua viagem, ele já nos transporta para um lugar como esse descrito.
    A veia de escritor em Michael era nítida. Já pensou ele escrevendo ainda mais livros, além dos dois que ele escreveu?
    Isso prá não falar dos filmes, Michael dirigindo e atualndo neles.

    Perfect!

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    1. Eu estou relendo os capitulos inteiros antes de publicar.....♥

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  3. Imagine... Michael escrevendo mais livros.. até em sua idade mais madura....!!!!!!

    Se algum grande cineasta tivesse a competência necessária para levar a vida de Michael ao cinema - não de forma superficial, mas captando o seu espirito verdadeiro - e se encontrasse atores igualmente talentosos.. para interpretar a sua infância e sua idade adulta... presentão hein???

    Se um dia fizerem isso, espero estar aqui para ver. Mas que seja um grande filme, se for para fazer feio, que desistam antes de começarem.

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  4. É verdade. Teria que ser um filme com o máximo do máximo de critério, um cuidado extremo.

    Teria que ser feito por pessoas que verdadeiramente soubessem captar a alma de Michael.

    Se não for assim, melhor deixar quieto mesmo porque a responsabilidade é muito grande, ainda mais sabendo de tudo o que Michael viveu e sofreu.

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  5. Também adoraria ver um filme sobre a vida de Michael, um filme verdadeiro, e na minha opinião, Johnny Depp, seria capaz de captar a essência de Michael e fazer uma grande atuação.

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    1. Oi Miriam, seja bem vinda.
      Johnny Depp seria uma grande opção mesmo.

      Já até foi comentado que ele seria o escolhido né?

      Quem sabe um cineasta seja iluminado para fazer um trabalho nota 1.000, fazendo um grande filme sobre Michael.

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  6. Eu estava a muito tempo querendo ler este livro. Adorei a idéia.. Parabéns...Amanha continuarei lendo,..

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  7. ADOREI ESTA IDÉIA. A MUITO TEMPO QUERIA LER ESTE LIVRO.OBRIGADA PELA GRANDE OPORTUNIDADE.AMANHÃ CONTINUAREI LENDO. BJS!

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